Carta aberta

Já faz muito tempo que eu não consigo escrever nada. E muitas vezes eu me convenço que não é falta do que escrever é só desmotivação mesmo, como agora.

Muita gente escreve para ser entendido, para encontrar no mundo um ponto de equilíbrio, para chegar à conclusão de que não está sozinho nessa coisa chamada vida.

Eu escrevo porquê penso demais. Escrevo porquê se estou andando na rua e vejo um senhor meio cambaleante tentando pegar uma sacola apoiada perto do asfalto imagino que ele vai cair e morrer atropelado por um ônibus e que alguém no meio da multidão vai dizer que eu empurrei o cara. E gasto horas dando voltas na minha cabeça com isso, acusações, defesas, lágrimas. E para escrever essa história, o que eu faria? Falaria principalmente de como me senti em relação a isso. E sinceramente, isso é muito chato.

Parabéns a todo mundo (e a mim) que vivem citando Clarice e Caio, juntos fizemos da minha pessoa ( da internet) e dos meus textos as coisas mais chatas do mundo. Porque não dá pra viver em um mundo cheio de gente tão profunda e sofredora. Eu quero ser mais fútil que isso. Eu preciso de uma folga dessa babaquice que é sentir demais por tudo.

Se você chora vendo Elisa Lucinda emocionada no desfile da escolas de samba de Vitória, amigo tem alguma coisa – muito – errada com você!

Então, oficialmente estou dando um tempo, até eu conseguir produzir algo diferente do que eu fiz até hoje.

Chega uma hora que ou você muda, ou você aceita ser quem as pessoas acham que você é, julgando sua vida pelos seus textos.

E eu não sou a menina angustiada e profunda dos meus textos, eu sou a infeliz que passou na hora errada quando o bêbado caiu e foi atropelado por um ônibus.

Faço o que, Zé?

E quando a gente não consegue mais escrever, Zé? A gente faz o que?
Senta e olha céu fingindo que não sente falta da escrita? Ouve uma música chorosa e deixa a lágrima cair pensando que seria bom demais saber ditar para o papel todos os pensamentos?

Ai Zé me ajuda a lembrar quem foi que disse que escrever dói, porque o danado tinha muita razão. Escrever dói demais e eu tenho evitado tanto essa dor, Zé. É que quando a lágrima brota eu dou logo um jeito de parar de escrever. Eu não quero mais ser triste, Zé. Eu sei que a gente escreve mais quando esta triste, porque a tristeza é danada e fica doida pra sair, quer correr e encontrar um abraço, um ombro, um sorriso amigo, mas a alegria não. A alegria é ressabiada demais. Fica escondida entre os dentes, se revelando apenas pelos olhos, mas nunca aceita cair no papel. Alegria é uma coisa que eu só consigo sentir, nunca descrever.

Ai eu fico assim Zé: caçando tristezas. E isso não ta ajudando nada a vida. Teve dias que o mau humor fez tão mal que a única coisa que eu senti foi uma dor no estômago tão forte que me deixou de cama. Pode isso? Pode alguém caçar tristeza quando na verdade não quer ser triste? Que coisa mais sem cabimento, Zé!

E eu fui dar ouvido logo ao poeta que diz que pra fazer poesia é preciso um bocado de tristeza. Veja só a situação na qual eu me meti. E agora o que eu vou fazer Zé, se não conseguir mais escrever porque só sei ser feliz?

Sobre saudades e cidades

Há aquelas pessoas que ao saberem que sou de Cachoeiro de Itapemirim vem logo com suas frases prontas, cheias de entusiasmo, preconceito e pouco conhecimento me dizerem que sou do interior, vim da roça, que a cidade é quente como a porta do inferno e feia de se olhar.
Quando questiono quantas vezes estiveram lá e por quanto tempo, muitas me dizem que apenas sabem disso por terem ouvido falar, nunca se quer colocaram os pés e se lá estiveram nem o pé no asfalto quente colocaram, a cidade só estava no seu caminho. Outros é claro, são de lá, moraram muito ou pouco tempo.
Me limito a concordar com cada palavra dita pela pessoa. É verdade, Cachoeiro é interior, assim como todas as outras cidades que não fazem parte da “Grande Vitória”. É de conhecimento, creio eu internacional, que Cachoeiro é um dos lugares mais quentes do mundo – pelo menos assim sinto quando estou por lá – e dizer que a cidade é feia não deveria ser afronta pra ninguém, porque essa é infelizmente uma verdade inegável.
Há sim muita coisa bonita escondida por lá, principalmente pelo seu interior (interior de interior ao qual chamamos roça). A resposta mais ríspida que costumo dar para encerrar o assunto é o que li em algum lugar que graças as inúmeras fontes que temos hoje não me recordo: falar mal de uma cidade é como falar mal de uma mãe, devemos nos limitar a cuidadosamente falar somente sobre a nossa. E muita pouca gente tem motivos pra falar mal da própria mãe.
Eu gosto de Cachoeiro, mas não sei dizer os motivos. Vivi lá toda a minha vida, talvez esse seja o maior de todos. Foi lá que fiz a maior parte das amizades que carrego comigo. E apesar da vontade de ir embora ter chegado junto com os meus 16 anos e ter só se concretizado aos pés dos meus 24, nada tenho a reclamar da cidade. É quente sim, mas por lá já teve até torre que fazia chover. É interior sim, e tínhamos o privilégio de estar a 30 minutos da praia, 30 minutos das montanhas frias. E é feia mesmo, inegavelmente como já disse. Lembro sempre de passar pela Jones dos Santos Neves triste pela poeira das pedras do mármore que cobriam os matos dos morros, os comércios, as casas. Mas era essa mesma poeira que me acariciava a alma quando depois de uma chuva a cidade inteira tinha um leve cheiro de terra molhada.

Não imaginava que eu poderia sentir tanta falta de um lugar quanto já senti da minha cidade no pouco tempo que estou fora. E que engraçado dizer isso, saudade de uma cidade, quando na verdade quero dizer saudade das pessoas que lá deixei, dos lugares que não vou mais todos os dias, dos bares em que não me sento, até daquelas mesmas pessoas conhecidas de “vista” que me cansava de ver em todos os lugares que ia.

E a saudade ainda dói. De cada paralelepípedo daquela rua onde morei a vida inteira, da casa que cresceu comigo, do lugar que muita gente insiste em criticar, as vezes sem conhecer, as vezes porque simplesmente não soube colher nada de bom.

Eu prefiro sempre ver o lado bonito dos lugares por onde passo e das pessoas que eu conheço. Espero que você também.

Calma, tá tudo bem.

- Tudo bem?
- humrum
- Aconteceu alguma coisa?
- Não…
- É que você não fala nada e eu to achando estranho
- Eu não to legal, mas ta tudo bem
- OK, como você acha que eu vou acreditar nisso se você diz que não está legal?
- Não é nada, ta?
- Tá…
- Não fica assim, ta tudo bem. Vai passar.
- Vai passar o que?!
- Olha não é nada, é que eu tive um dia ruim e acho que to na TPM, passei o dia triste e irritada com tudo. Eu estava bem, mas ai um cara começou a ouvir uma música estranha no último volume do celular dentro do ônibus e aquilo me deixou realmente desconfortável, no trabalho o telefone não parou de tocar um segundo. Sei lá…   E na hora do almoço eu entrei em 3 restaurantes diferentes, mas estavam todos lotados!! Eu tive que almoçar no piorzinho porque estava morta de fome e não queria esperar demais. Eu não sei, eu ando tão triste. E estou com olheiras enormes, parece que eu participei de algum treinamento de selva e passei semanas sem dormir. E gorda, meu deus como eu estou gorda! Sério eu preciso fazer alguma coisa, eu moro no 4º andar de um prédio sem elevadores, todo dia eu chego em casa parecendo que vou ter um infarto ali na porta mesmo. E ta muito difícil sabe, é complicado porque meus amigos sumiram, todos eles, e eu acabo não tendo com quem conversar, além de você. Eu sei que tudo isso é demais e que você não tem porque sofrer com toda essa minha melancolia, porque você é ótimo e não tem nada  ver com tudo isso, mas às vezes, muitas vezes, é só você quem eu tenho pra recorrer. Mas, por favor, eu não quero que você ache que eu sou uma louca, desequilibrada que chora por que não conseguiu achar o chocolate que queria no supermercado. Eu to só na TPM, não é nada. Vai passar.

- …

Desculpe, mas te esqueci.

Me perguntaram outro dia como eu consegui esquecer você. Quem não sabe da minha força podia jurar que eu estava de amor novo, mas não foi nada disso.

Sou contra novos amores para que se apaguem as magoas. Tudo tem seu tempo e para que algo bonito aconteça novamente é preciso primeiro ter um coração bonito. E não há nada de bonito em corações magoados.

Superei você no dia que acordei com um gosto amargo de vodca barata na boca e minha poltrona favorita estava queimada de cigarro. Eu acho que era domingo e pra ficar mais dramático vou dizer que estava chovendo, embora não esteja muito segura disso.

Acordei deitada no tapete da sala porque o sol queimava minha perna que tinha um roxo estranho, também não me lembro de onde ele veio. Passei a mão pela boca e um risco de batom vermelho sujou todo meu antebraço.

Fui até a cozinha atrás de um café, a merda é que você não está mais aqui pra fazer o café. Não consegui me lembrar quantas colheres de pó pra quantos copos de água usar. Eu nunca soube fazer café.

Passei pelo espelho do banheiro, era eu ali, a figura exposta do fracasso. Ao menos era assim que eu me sentia. Um fracasso ilustrado. Aos 31 anos, solteira, sozinha em um apartamento de dois quartos, graças a Deus sem nenhum gato. Foi aí que eu pensei: mas que droga de vida é essa que eu to levando?

E sem mais nem menos, tirei tudo quanto era garrafa de bebida de dentro de casa, joguei os cigarros no lixo, junto com a sua escova de dente. Jurei nunca mais frequentar aquele bar onde todos os garçons nos conhecem. Apaguei seu número do meu celular, rasguei as fotos e deixei os porta-retratos vazios. Assim, tudo de uma vez, tudo numa só dor. O maldito cigarro que você trouxe pra minha vida, a bebida que chegou com toda a força depois que você se foi. Tudo.

Lavei a casa, lavei a alma. To aqui ainda, com meus 31 anos, sozinha e solteira, é verdade, mas feliz. Pensando que eu sou muito melhor assim do que junto de alguém como você.

Foi assim que eu te esqueci. De uma vez só, numa só dor, com uma só lágrima, a última.

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Gaveta

@laridardengo

Um amor, um ódio, uma alegria, uma dor, um sorriso. Uma pitadinha de literatura pra você.

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